“BUNDLE” DE PAV

Bundles para Prevenção da PAV: Evidências, Consensos e Práticas Multidisciplinares na UTI

Por Enf.º Me. Eliézer Farias de Mello

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV) é uma das principais infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) em unidades de terapia intensiva (UTI). Para reduzir sua ocorrência, diversas instituições internacionais passaram a recomendar a adoção de bundles – ou pacotes de medidas – baseados em evidências. Esses conjuntos de intervenções padronizadas visam melhorar os desfechos clínicos dos pacientes submetidos à ventilação mecânica, com foco na prevenção da PAV (KLOMPAS et al., 2017).

Segundo o Institute for Healthcare Improvement (IHI), um dos bundles mais amplamente difundidos inclui cinco práticas essenciais: elevação da cabeceira da cama entre 30 e 45 graus; interrupção diária de sedativos e avaliação da prontidão para extubação; profilaxia da úlcera péptica; profilaxia para trombose venosa profunda; e higiene bucal com clorexidina a 0,12% (AL-ABDELY et al., 2018). A implementação sistemática dessas intervenções mostrou-se eficaz na redução das taxas de PAV e de complicações associadas.

No Reino Unido, Hellyer et al. (2016) propuseram um bundle com seis itens, incorporando medidas similares, mas acrescentando duas ações específicas: a aspiração da secreção subglótica e o monitoramento da pressão do balonete do tubo orotraqueal (cuff). A inclusão desses elementos reflete uma preocupação maior com o controle da colonização microbiana na via aérea inferior, aspecto central na fisiopatologia da PAV.

A variação entre os pacotes pode gerar dúvidas sobre quais medidas seriam consideradas imprescindíveis. Entretanto, o que se observa na literatura é que, independentemente da combinação exata dos itens, todos os bundles bem aplicados promovem resultados clínicos favoráveis, como redução da incidência de PAV, menor tempo de ventilação mecânica e diminuição da mortalidade em UTIs (WHO, 2022; HELLYER et al., 2016).

Essa diversidade de componentes nos bundles aponta para a necessidade de cada instituição estabelecer, por meio de sua equipe multiprofissional, um conjunto próprio de medidas com base nas melhores evidências disponíveis e nas características do seu serviço. A construção coletiva do bundle institucional fortalece a adesão e a responsabilização da equipe pelo cumprimento das práticas (SILVA et al., 2022).

Além disso, a padronização dos bundles deve vir acompanhada de estratégias educacionais e auditorias sistemáticas. A Educação Permanente em Saúde (EPS) tem papel crucial na formação crítica e reflexiva das equipes quanto à adesão e aos impactos das práticas de prevenção da PAV. Estudos apontam que treinamentos periódicos, simulações clínicas e devolutivas sobre indicadores assistenciais ampliam a eficácia dos bundles (BRASIL, 2023; PROQUALIS, 2022).

O compromisso com a implementação dos bundles não deve ser apenas técnico, mas também ético. Prevenir a PAV é uma responsabilidade compartilhada que exige vigilância constante, cultura de segurança do paciente e engajamento institucional. Ao integrar ciência, clínica e cuidado, os bundles se consolidam como ferramentas poderosas na luta contra as IRAS, particularmente a PAV, cuja prevenção impacta diretamente na qualidade do cuidado intensivo (WHO, 2022).

Portanto, cabe às lideranças da UTI – enfermeiros, intensivistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e gestores – avaliar criticamente os componentes de cada bundle, validá-los junto à equipe e garantir sua aplicação sistemática. A escolha de cada item deve refletir não apenas evidências robustas, mas também a realidade e os recursos locais, sempre com foco na segurança e recuperação dos pacientes críticos.


Referências

  • AL-ABDELY, H. M. et al. Impact of a multidimensional infection control approach on ventilator-associated pneumonia rates in adult intensive care units in Saudi Arabia: Findings of the International Nosocomial Infection Control Consortium (INICC). Journal of Infection and Public Health, v. 11, n. 5, p. 655–661, 2018. DOI: 10.1016/j.jiph.2017.10.008.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 01/2023 – Prevenção de IRAS. Brasília: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa.
  • HELLYER, T. P. et al. The Intensive Care Society recommended bundle of interventions for the prevention of ventilator-associated pneumonia. Journal of the Intensive Care Society, v. 17, n. 3, p. 238–243, 2016. DOI: 10.1177/1751143716644461.
  • KLOMPAS, M. et al. Strategies to Prevent Ventilator-Associated Pneumonia in Acute Care Hospitals: 2017 Update. Infection Control & Hospital Epidemiology, v. 38, n. 6, p. 685–695, 2017. DOI: 10.1017/ice.2017.44.
  • PROQUALIS. Prevenção de Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica: recursos atualizados. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022. Disponível em: https://proqualis.fiocruz.br.
  • SILVA, D. L. et al. Efetividade de bundles para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica: revisão sistemática. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 34, n. 3, p. 394–403, 2022. DOI: 10.5935/0103-507X.20220059.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global report on infection prevention and control. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240051164.