“BUNDLE” DE ITU

Estratégias Baseadas em Evidências para Prevenção de Infecção do Trato Urinário Associada ao Cateter (ITU-AC)

Por Enf.º Me. Eliézer Farias de Mello

A infecção do trato urinário associada ao uso de cateter vesical de demora (ITU-AC) representa uma das principais infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), especialmente em pacientes hospitalizados por longos períodos. A utilização inadequada ou prolongada do cateter urinário pode elevar consideravelmente os riscos de colonização bacteriana ascendente, culminando em infecções que aumentam a morbidade, o tempo de internação e os custos hospitalares (MAGILL et al., 2023).

A literatura científica mostra que a implementação de bundles — pacotes de medidas assistenciais baseadas em evidências — é uma estratégia eficaz para reduzir a incidência de ITU-AC. Um estudo conduzido por Lai et al. (2017) evidenciou que a adoção de um bundle específico, com foco em boas práticas de enfermagem e manejo do cateter, reduziu significativamente a densidade de incidência de infecções do trato urinário em unidades críticas.

Os elementos principais desse bundle incluem a educação da equipe de enfermagem quanto à higiene, a fixação adequada do cateter vesical de demora (CVD), a orientação a pacientes e familiares sobre os cuidados com o dispositivo, o posicionamento adequado da bolsa coletora — sempre abaixo do nível da bexiga e acima do chão — e a avaliação diária da necessidade de manutenção do cateter (LAI et al., 2017; ELKBULI et al., 2018). Essas ações são de baixo custo, mas de alto impacto quando realizadas de forma sistemática e com adesão adequada da equipe.

No Brasil, a iniciativa da Colaborativa PROADI-SUS, “Melhorando a Segurança do Paciente em Larga Escala no Brasil”, estruturou um diagrama direcionador que complementa as evidências internacionais com recomendações específicas para o contexto nacional. Entre os itens destacados estão: indicar o uso do CVD apenas quando clinicamente apropriado, cumprir rigorosamente a técnica asséptica na inserção, manter o sistema de drenagem fechado e higienizar adequadamente o meato uretral (BRASIL, 2018).

Além disso, é fundamental reforçar práticas seguras durante a manipulação do sistema, respeitando o ponto de conexão fechado e evitando desconexões desnecessárias, bem como manter vigilância ativa quanto à real necessidade do cateter, removendo-o o mais breve possível. Segundo Meddings et al. (2019), intervenções focadas na remoção precoce do CVD estão entre as estratégias mais eficazes para a prevenção de ITU-AC.

Um ponto essencial para o sucesso dessas estratégias é a capacitação continuada da equipe de saúde. Estudos apontam que treinamentos regulares e a padronização de protocolos assistenciais aumentam a adesão ao bundle e promovem mudanças sustentáveis na cultura de segurança (GOMES et al., 2022). O envolvimento de líderes de enfermagem e preceptores também favorece a integração das boas práticas na rotina assistencial.

Outra dimensão importante é a comunicação efetiva com pacientes e familiares. A orientação quanto ao motivo do uso do cateter, os cuidados necessários e os sinais de alerta para infecção promove maior corresponsabilização no cuidado e favorece a detecção precoce de complicações. Essa abordagem centrada na pessoa está alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2022) para segurança do paciente.

Portanto, a prevenção da ITU-AC deve ser compreendida como uma responsabilidade compartilhada, que exige a articulação entre diretrizes institucionais, capacitação da equipe, monitoramento de indicadores e práticas centradas no cuidado seguro. O uso de bundles com base nas melhores evidências disponíveis é uma das estratégias mais eficazes e aplicáveis para esse fim, contribuindo decisivamente para a redução de IRAS nas instituições de saúde.


Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Melhorando a segurança do paciente em larga escala no Brasil: projeto colaborativo – IRAS. Brasília: MS, 2018. Disponível em: https://proadi-sus.org.br/projeto/iras

ELKBULI, A. et al. Catheter-associated urinary tract infections: Are we making progress? International Journal of Surgery, v. 58, p. 126–130, 2018. https://doi.org/10.1016/j.ijsu.2018.09.034

GOMES, A. M. T. et al. Intervenções educativas para prevenção de infecção do trato urinário associada a cateter: revisão integrativa. Revista de Enfermagem da UFSM, v. 12, e79, 2022. https://doi.org/10.5902/2179769265191

LAI, N. M. et al. Strategies to reduce catheter-associated urinary tract infections: a systematic review and meta-analysis. American Journal of Infection Control, v. 45, n. 5, p. 482–491, 2017. https://doi.org/10.1016/j.ajic.2016.11.005

MAGILL, S. S. et al. Changes in Prevalence of Health Care–Associated Infections in U.S. Hospitals. New England Journal of Medicine, v. 388, p. 1438–1448, 2023. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2213156

MEDDINGS, J. et al. Device-associated infections. In: HUGHES, R. G. (ed.) Patient Safety and Quality: An Evidence-Based Handbook for Nurses. Rockville: Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ), 2019.

WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Report on Infection Prevention and Control. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240051164